ai de quem errar

Minha mãe sempre me disse que à medida que vamos ficando mais velhos vamos ficando mais medrosos. Por certo tem tudo a ver com a onipotência assombrosa do mundo juvenil. E é mais uma das grandes verdades de mãe que é pouco compreendida – tá aí um outro medo, medo de quando meus discursos forem inúteis aos ouvidos dos meus filhos.

São tantos os medos que até de pensar em ter medo eu tenho medo. Mas neste meu momento atual de vida que quase desaprendi a me cuidar nas ruas, que quase não esbarro em notícias violentas, o medo é de aranhas e das pessoas sem defeitos. As aranhas a gente da um jeito, taca veneno e da vassourada. Já a perfeição em forma humana é indicativa de cautela.

Ressalva a minha mãe que é impecável, todos podemos ser bons e todos podemos ser ruins, ou contrário desfavorável, podemos ser ruins e podemos ser bons. Sinto em desfazer o conceito de impecabilidade do mundo, mas é preciso desnudar essa utopia.

Com o tanto de exposição e o tantão de intimidade por conta do nosso mini mundo online, todas as escorregadelas, os lapsos, as confusões, as discordâncias já ocorridas desde que a minha árvore genealógica começou, hoje são tidas, vistas, interpretadas descomedidamente como intoleráveis.

“Tropeço também é passo” eu li por aí. Já muito titubeei até aqui e só escapei porque os meus tempos de câmera Kodak não permitiu que os fatos saíssem dali e adentram-se mundo afora.

Não estou aqui falando de qualquer tipo de violência, discriminação, preconceito. Estou me referindo a intolerância fanática ao erro que incoerentemente reprovam condutas alheias comportando-se tal qual ou se não pior. Me refiro é sobre a dureza das pessoas que condenam sem compaixão, que despejam palavras de ódio numa tentativa vã de reparo. É sobre a tamanha incompatibilidade entre discursos mascarados por uma tela e os modos de um dia banal. O que me espanta é a censura em massa que populariza hostilidade e instiga conflito.

Ai de quem errar, ai de quem sair da linha. Vai ver tem nexo a inquietação da perfeição, é o medo disfarçado. E eu quase deixo tudo isso pra lá quando eu vejo que quem ama, ama por inteiro. A minha sorte é assim, amor que floresce e não importa, é a essência de ser por fim.

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