SÁBIA ESCOLHA DE NÃO DESISTIR

Com o tanto de revistas heterogêneas, das mais variadas temáticas imagináveis acumuladas em minha estante da cultura, eis que meu marido surge com pensamentos do querido Albert Eistein.

Mesmo que instaurando uma crise financeira em nosso lar, ele não abre mão de suas leituras de passatempo.

É adorável. É uma gentileza para a alma, uma atenção a nossa mente, um incentivo para criatividade, é um momento para fantasia.

Dentre essas leituras eu sempre acabo tirando um proveito. Neste caso, eu já tinha certa ciência de quem era aquele senhorzinho de cabelos brancos levemente desgrenhados com um semblante de maluco. Sabia também que ele era um físico teórico, porém meu conhecimento termina por aí. E eu posso justificar essa minha ignorância ao fato de que não gosto e nem nunca gostei de física.

Mas a questão é que gostando ou não, Albert Eistein agregou de alguma forma em minha vida. O sabichão assegura “não é que eu seja tão inteligente, é só que fico com problemas por mais tempo.”

Mania mísera de achar que a maestria e o êxito dos grandes é consequência de um intelecto excepcional quando que na mais pura verdade é efeito de muito esforço, obstinação, sacrifício e incontestavelmente muito peito. Ou ainda quando não casamos a sorte com o sucesso.

Eu mesma muito já usei desse perigoso argumento para me isentar de qualquer projeto frustrado, e no fim eu entendo que é muito mais fácil valer-se de tal ideia. Afinal – eu me incluo aqui – são pouquíssimos os que realmente se demoram nesses quebra-cabeças da vida.

O que tenho experimentado é o capricho da prontidão. Está bem que nascemos e vivemos em um mundo que se faz sem demora mas aí não coincide clamar distinção.

Os ilustres, os gigantes, os célebres, os notáveis, os renomados, os influentes, os destacados, os fodões entregam-se com veemência, com vontade e ali continuam, se delongam o tempo que for decididos a fazer acontecer. Tem suor, tem custo, tem renúncias, também tem sagacidade e as vezes até pode ter pé-quente mas que aceitemos, o que tem mesmo é uma sábia e valente escolha de não desistir.

E que assim possamos refletir com o grande Albert que vai muito alem de sua teoria da relatividade geral.

um dia jÁ fora uma menina

É difícil pensar na mãe antes de ela ser mãe.

Até parece que sempre fora uma…

Difícil buscarmos entendê-las quando na verdade foram elas quem sempre nos entenderam.

Difícil imaginarmos que tenham medos quando foram elas que sempre nos apresentaram a coragem.

Difícil imaginarmos que tenham inseguranças quando foram elas que sempre revelaram firmeza.

Difícil imaginarmos que tenham tristezas quando foram elas que sempre nos preencheram com seus sorrisos.

Difícil imaginarmos que tenham escorregadelas quando sempre nos pareceram infalíveis.

Mãe tem medo, tem insegurança, tristeza e falhas.

Um dia já fora uma menina…

Mãe tem sonho, vontade, mania, loucura, tem excesso, fúria, tino, razão e nem tanto.

Mãe tem culpa, receio, incerteza, solidão e um tantão.

Um dia já fora sozinha…

Já perambulou em noites quentes de verão, já bebeu e esqueceu, já amou e desamou.

Ela já fez farra por aí, já esbanjou jovialidade e embriagou-se com pinga barata.

Já dançou até cair e caiu. Ela já levou a pior e saiu melhor. Já se perdeu nas curvas da vida, já deu voltas em circulo e já andou em linha reta.

Ela já ficou sem rumo, sem respostas e nunca nem encontrou. Até procurou. Mas foi a vida que se encarregou.

Um dia tornou-se mãe.

E o que um dia já fora, perdura.

Nunca deixou de ser aquela menina.

UMA VIDA DE IMENSIDÃO

Minha cabeça é do tamanho de uma ervilha segundo meu marido e alguns amigos que também já me chamaram atenção para este fato.

Me divirto com a possibilidade das dimensões de cabeças alheias terem um impacto diretamente no tamanho do encéfalo. Um grande cabeção seria um engenhoso? Com uma miúda cabecinha teria eu, meu intelecto prejudicado? Acredito que não a ponto de ponderar essa especulação.

Independente do tamanho da cabeça, o que é que acontece para todos nós é uma economia mental. Eu não vou me esforçar em suplicar ao sabichão google e nem se quer consumir o que ainda resta da minha eficácia que é o meu combustível para terminar esta obra, para lembrar o conceito tal qual de economia mental. Bastem-se com a minha explanação.

Devorados, absorvidos, consumidos por completos pelas informações desse mundão, nem se fossemos um ET prodígio colosso seriamos capazes de assimilar sensorialmente todos os cheiros, sons, estímulos visuais que se embaralham em nossas vidas. Por isso usamos de critério seletivo.

Sim meu caro leitor, nós também selecionamos o que vamos ou não filtrar. Evidentemente que nossa cabeça pensante vai operar esse sistema discernindo o que é ou não é substancial. Também há casos – mais comum do que a gente imagina  – de seleção por conveniência.

Nós recém tínhamos nos mudado para um apartamento há uma quadra da praia, separados apenas por uma primary school. Em um primeiro momento pode até soar uma enrascada, afinal, crianças serelepes gritando o tempo todo não é uma das melhores melodias aos ouvidos. Confesso não me apaguei muito ao espalhafato. Eu gosto mesmo é de me deliciar com a vitalidade desses bambinos, tão distantes da complexidade de ser e ter, tão protegidos em um mundo faz-de-conta.

Nesse meio tempo ao contemplar o encanto da infância depois de um mês morando em minha casa que dou-me por conta que da minha sacada consigo ver um pedacinho do mar. Pedacinho do tamanho da minha cabecinha de ervilha.

É apenas uma fração d’água. Avante há um oceano inteiro. É uma questão de perspectiva.  Uma esperança de que tudo é tao maior do que a gente pode ver, uma esperança de que o que enxergamos nem sempre é uma realidade.

As vezes avistamos só uma ripa d’água para navegar, quando se tem um oceano inteiro. Não é mera questão de observação. É aspirar uma vida de imensidão.

ABRACE O CAOS

Um gasto certeiro no nosso orçamento são as revistas dele de filosofia. A princípio confesso que me dá a maior preguiça de ler, eu tenho o meu tempo para me engajar. A questão é que já sabendo que no fim das contas eu vou gostar, a leitura acaba sendo uma imposição. “Vem cá que agora nós vamos ler um artigo”.

Naquele momento, após um dia inteiro na labuta, eu não queria esgotar o que restava dos meus recursos intelectuais para ler artigo em um inglês um tanto requintado. Com a condição de tradução espontânea, eu “li” o artigo. Ele sabia. Eu gamei. Eu gritei. Eu me exaltei.

Ah e como eu amo tudo que põe em movimento meu espírito frenético. E é tanto o estardalhaço que eu preciso escrever.

Eu vou me empenhar ao máximo para tentar minimizar qualquer possível plagio. Porém, a genia genialmente exprimiu exatamente o que eu já queria dizer há tanto tempo que eu já nem sei mais se não ela que é a plagiadora da minha ideia.

O tal artigo tratava-se então a respeito do utópico balance.

Eu confesso que essa epidemia de “equilibro na vida” nas redes midiáticas tem me deixado um pouco desequilibrada. Infelizmente somos inclinados a nos acomodar dentro dos moldes moldados inclusive por nós mesmos e agora é a vez de se equilibrar.    

Somos bons em prontamente venerar os pouquíssimos – crédulos de que são em muitos – que aparentam pela tela do nosso celular uma vida harmônica sem falhas. Insistimos em acreditar que alcançando o ponto de equilíbrio vamos ser capazes de cessar o conflito eterno de nós com nós mesmos.

As dúvidas dela também são minhas e muito possivelmente devem ser suas. Nesse mundão doido, nessa nossa vida insana, como é que fomos chegar ao ponto em que qualquer fome desproporcional, qualquer inclinação ao excesso é entendida como uma falha moral?

Matutando essa nossa cultura da moderação dou-me por conta que na real mesmo ta tudo do avesso. A pergunta deveria ser outra: com a fúria dessa vida, a vicissitude, a fragilidade, a urgência, a constante mudança, como economizar nossa abundância? Como reprimir nosso montão?

A bagunça da vida não casa com o equilíbrio impecável. Mas se então fosse possível essa harmonia, não se engane, é ilusório, é temporário. A vida voa, as circunstâncias mudam, as pessoas mudam, o que elas querem também.

Não se chateie com seus excessos e exageros. Acolha suas manias que te tornam estranho, suas loucuras juvenis causadoras de inveja até nos próprios jovens, suas imperfeições que te diferenciam de todo o mundo que aderiu as feições das Kardashians, suas limitações que te obrigam a esbarrar em outras vielas, suas escorregadelas que te fazem lembrar o que é ser humano.

Abrace o caos. Eu te garanto, o encanto de viver é a fervura de uma vida sem frescura.

TER NÃO MAIS QUE SER

Gostaria de encontrar mais sossego em meus tempos de tédio. Mas é aí, nesse intervalo, que eles vem com força total. Dificilmente me dão uma folga. Pro bem ou pro mal, eles ficam. Um tal de ócio produtivo. E quando penso que me livrei do penso, eis que aparecem no meu profundo estado adormecido. Até  que de quando em quando me pego me mandando a merda. Gosto de acreditar que eu não sou a única.

Seguindo o raciocínio, que é uma prática difícil pra mim, venho me consumindo pela falsa ideia de felicidade alheia. 

Estamos viciados na ideia de ter e ser.

Nossa geração cibernética – me incluo aqui – está satisfeita com informações superficiais e com a instantaneidade desse mundo que nos treina pra correr. Talvez esse meu desconforto seja um sintoma de insatisfação. Mas tenho certeza que essa sensação desconfortável não pertence só a mim. 

Pode até ser que eu esteja com muito tempo livre, ainda que tente usa-lo com leituras e vídeos sobre finanças. Mas a minha ideia aqui, longe de pregar o moralismo, é criar um espaço de penso. Espaço que há muito tempo não tem tempo. 

Confesso – talvez seja visível – que antes mesmo de abrir os olhos pela manhã, já estou sabendo o que a fulana comeu na noite anterior. O que me faz pensar que aquele tempo do The Sims em que construir mansões com “rosebud;!” era muito mais real. 

Não me interpretem mal, não estou dizendo que somos falsos. Estou apenas lamentando a prática de valorização de coisas tão rasas. Também faço parte dessa comunidade. Também quero ser magra, rica e passar o ano novo em Fernando de Noronha. Mas antes, eu quero tantas outras coisas, que isso é a parte pequena dos meus sonhos.

Quero ser feliz e viver sem me importar com julgamentos. Eu quero poder falar sem me policiar. Eu quero me expor sem medo de ser ridicularizada. Eu quero esbanjar a saúde de uma gordurinha localizada e uma bunda de quem nadou na coca-cola. Quero que as meus erros não sejam entendidos como imprudência ou mau-caratismo, mas de alguém que tentou acertar. Quero gargalhar, gritar, sem ser vista como inconveniente. Quero ser feliz sem incomodar. Eu quero poder ser criança ainda que já adulta. 

Tenho eu meu direito de liberdade e vou libertar tudo que pulsa aqui dentro, quase que como não existisse filtro entre o que vem e o que sai, pois já basta a censura do mundo.

E cá entre nós, é bem mais justo viver assim.

DESFECHO DAS INCUMBÊNCIAS

É sexta feira. O dia que tanto aprecio. É um principio de libertação: eu faço o que quero na hora que quero. É o desfecho das incumbências. Tempo de regalias. Merecido.

Ainda assim não consigo me desfazer de rotinas. Quando não me jogo em corridas noturnas em que cada km me consente uma cerveja, me vendo a algumas taças de shirraz.

Meu momento de nostalgia, de lembranças, de suspiros. Meu momento de contemplação. Uma brecha para os meus pensamentos intrusos, tamanha minha fragilidade.

Hoje é uma sexta fora do padrão. Aventurei-me em uma comedia romântica já que estou desfrutando da minha própria companhia, cenário raríssimo. Estava interessante, mas a algazarra da escola da frente da minha casa não esta me possibilitando dar continuidade na minha sessão cinematográfica.

É celebração de natal. As crianças ostentando vestimentas natalinas. Os pais babões. Os agregados contentes. A escola lotada. Luzinhas enfeitando um palco que cede lugar a musica que embala meus devaneios. E aqui vou eu, embalada pela emoção dessa época que é só amor. Amor pelo próximo, amor pela vida, família. amor por tudo, amor por tanto, que nem tanto tantos tem.  E eu afortunada com a benção dessa existência só tenho a agradecer.

É a comemoração que toma conta. São tempos de união. Tempos de conectar, de se aproximar, apaixonar. São tempos de reflexão, de lembrar, entender, cuidar, zelar, de curar. São tempos de imaginação, de querer, desejar, sonhar e aspirar. São tempos de acreditar e confiar que a magia do natal transforma quem quer que seja, quem quer que queira.

Agora estou aqui embriagada de vinho, melodia, saudade e de vontade.

INCANSÁVEL

Para não romper o arquétipo, é inelutável a minha repetição.

Eu repito, repito e repito, até repetir o que eu já havia repetido. Essa minha mania já despertou uma pratica de bullying na minha família. É uma pirraça prudente e consentida.

Muito provavelmente que a nossa benquista psicologia dispõe de interpretações que expliquem esse infortúnio e que muito mais provavelmente isso é culpa da minha mãe. Enfim, que a culpabilidade deixemos para lá, por que além de repetir eu também adoro procrastinar.

Eu já falei incontáveis vezes que o pior de ser adulto não são as contas a serem pagas, não são os lençóis semanais a serem lavados, nem as compras de supermercado meticulosamente elaboradas para nos pouparmos ao máximo de nos tornarmos frequentadores diários. Muito menos o enorme desgaste mental para definir o menu da semana.

Quando me vi “obrigada” a abandonar minha vida juvenil e todas as garantias, os privilégios e as exonerações que andam juntas, me esbarrei em um zona bem longe de ser confortável. E “ai” de quem dizer que é fascinante se aventurar na escuridão de um território desconhecido. Mas nada que não sejamos capazes de nos adaptar. Seja a imposição da vida, seja iniciativa própria, uma hora ou outra, o mundo maturado vai bater em sua porta.

Ainda que eu tenha resquícios infantiloides dentro de mim, já ta na hora de fazer acontecer, bancar as escolhas, arcar com as consequências e bater no peito diante de todas as decisões, sejam elas certeiras ou errôneas!

Há dois anos eu não tinha todo essa lucidez. A prova disso foi o carro de mais de 300mil km que comprei de um espanhol que nunca nem tinha visto. Durou o que durou. Foram dois anos de consideráveis despesas e mais uns bons apertos nessa estrada da vida.

A despedida do prezado e os $300 dólares que nos rendeu a venda para o ferro velho não foi o mais doloroso. Custoso foi ter de achar um carro novo com um capital minguado diante de tamanha impaciência e pretensão. Foram um mês de obstinação e de martírio. Cenário perfeito para aflorar toda minha necessidade de repetição e comprovar a minha teoria que gerenciar finanças é fichinha quando comparado a tomar decisões sem a garantia de mamãe.

COMBINAÇÃO DE OZ

Tem coisas nesse mundo que não adianta insistir. Não da, não da. Pior vai ser se forcar a barra.

Feijão com arroz nasceram um para o outro. Vinho e queijo são alma gêmeas. Pizza e coca-cola é uma obrigação andarem juntas.

Agora, querer juntar água e óleo que nem se quer à química compete, o que esperar de um balde de açai com um litrão de café? Pois bem, a Austrália também pode ser um show de horrores.

Não é nem uma questão de abrir a cachola para “novas experiências”.

Não coincide com o alicerce da nossa cadeia alimentar.

Pode até haver uma camaradagem entre o quente e o gelado. Mas neste ponto, estou me referindo a um brownie com sorvete. De modo algum açai e café.

Para assimilar essa abstração (ou seria aberração) eu fielmente acredito que muito dos nossos comportamentos e gostos incoerentes são mecânicos e reflexo do momento e das pessoas que nos cercam. Eu continuo fielmente acreditando que o açai com café foi uma dessas conjunturas.

Foi no final do século XX com a vinda da primeira frota de imigrantes brasileiros que chegou, contrabandeada, a down under a fruta bendita, para o jubilo dos formosos garotões de ombros largos, cabelos mechados e pele alaranjada do sol.

Eu já cantei a pedra. Algum ozzy muito cool, dominante, mentor, após uma clássica sessão de surf, de vento do quadrante sul, com um metrinho de onda, abrindo para os dois lados, parede de pé, intubando no inside, ainda com a chapadeira na cabeça desejou cafeína e a fruta batida com banana, morango, nuts, guaraná e sei la mais quantos ingredientes e se deleitou nessa grande façanha.

Hoje, ainda no inicio do século XXI a prática se conserva. O estapafurdismo virou mania. O que era para ser ruim passou a ser bom.

E aí tu vê só, reformulo o que mencionei acima. Tem coisas que podemos e devemos sim insistir.

Vai que dá certo?

BIG DEAL

Teoria do big deal. Ja ouviu?

Possivelmente não, uma vez que quem criou fui eu. Criação de meus próprios devaneios.

Quando pressionados pela vida a abraçar a maturidade mandatória desse mundo, não tem jeito, ou tu consente ou tu sente. É uma mera questão de perspectiva.

Crescer nunca foi uma tarefa fácil. Sábio conselho de mãe, assimilado fora de hora, que garantia: “aproveita enquanto tua única responsabilidade é estudar”. Ahhh como eu condenei esse discurso.

Então os anos vão passando, os estudos passam a ser bem quistos, o tempo fica escasso, as bolachas recheadas dão lugar a mísera porção de amendoins, a balança aumentando progressivamente, a pele de bebê denunciando o descomedimento do sol do meio dia, as despesas aumentando, o dinheiro desaparecendo…enfim, uma listagem assombrosa que me roubaria umas boas noites de sono.

Eis que vivendo há um tempo nas conjunturas mencionadas acima, depois de muito me desapontar com os improcedentes privilégios de ser “dona” da minha própria vida, me vi forçada a tomar uma atitude: fazer pouco caso dos infinitos afazeres desse mundo adulto. Provavelmente tarefa tão ou mais complexa do que ser gente grande, mas eu garanto, o saldo é positivo.

A teoria é simples. Difícil mesmo é pôr em prática, porém nada que a força do hábito não ajude.

É o seguinte: toda vez que te ver aprisionado a qualquer tarefa ingrata do dia a dia, terás que entregar-te a filosofia “sem big deal, no drama”. Por exemplo, de segunda a sexta tens que trabalhar certo? Isso seria uma realidade a ser questionada? Imagino que seja incontestável, portanto, a lamúria é inútil. E é essa regra que tem de ser aplicada a todos os outros cenários.

Toda vez que tiveres que ir à academia ao invés de liberar aquela bufada chata “aaah”, não deixe que isso entre em questão, não cogite, não pense, só vai. Toda vez que ver aquela louça aglomerada na pia, ao invés de queixar-se e proferir aquele dramático “porque porque”, lave, seque e termina logo com isso. Quando chegar o maldito dia de trocas de lençóis, toalhas, panos de pratos, tapetes, e todo resto que consiste em uma casa adulta, ao invés de dar seguimento aquele “aaah” o tornando ainda mais ensurdecedor, lave, pendure, despendure, dobre, guarde e pronto. Afinal, existe outro jeito? Eu desconheço. E já sabendo que existe uma tendência dessas atividades se agravarem expressivamente em um futuro não muito distante, não podemos consentir que esses “problemas” alcancem uma magnitude e tanta potência em nossas vidas.

A vida já se encarrega de contratempos. O mundo já transborda adversidade. Uma humanidade que já nem acredita. E eu pergunto: ainda vamos nos ocupar com tão pouco? Sem big deal e seja feliz!

TEMPO SEM TEMPO

Esta fora do meu domínio, é insistente, é tinhoso. Não sei dizer se é produto da angústia, se é fruto da minha efervescência ou efeito da chuva de estímulos, mas meus pensamentos não sossegam nem quando minhas pálpebras cansadas cedem carecendo de uma inatividade conveniente.

Há um tempo que tenho pensado a respeito do tempo. Tempo em todas suas dimensões. O tempo que passa, o tempo que fica, o tempo disponível, o tempo sem tempo, o tempo que nos deixou, o tempo que esta por vir. Não se controla, não se alcança, não volta, não anuncia, não tem pressa, porém chega. É uma reflexão intensa, profunda e penosa.

Hoje eu vejo um tempo que me rememora a estima pela prontidão, pela urgência e impaciência. Um tempo que fomenta a insuficiência sem fim. O tempo que promove a insatisfação eterna.

E eu não venho com qualquer solução, afinal o consumo nos engoliu. Sem chance de desbancar a frivolidade. Entre ser e ter, nós sabemos o desfecho. Passa o tempo e pouco muda, estacamos na falsa ideia da felicidade material.  É o impasse que persiste:Ter tempo ou ter coisas.

Não é viável para todos, mas para tantos outros é questão de escolha. Eu pude escolher e escolhi o tempo, sabia decisão. Priorizei um sono até mais tarde, um café da manhã demorado, ostentar a pele enamorada do sol, aproveitar o ar gélido matinal, desfrutar do silencio, devorar livros, escrever, pensar, caminhar, viver de biquíni, almoçar em casa, cuidar de mim, deleitar-me em bons Podcasts, me entediar nas revistas filosóficas, apreciar o mar, contemplar o céu, o verde, o dia, saborear minha vida, deliciar-me com meu tempo.

E hoje, faz sentido quando um grande amigo me disse: rico é aquele que tem tempo.

Bem valioso, tão precioso. E eu farta, plena de tanto provar da vida.