Dois CORAÇÕES

Quiçá visível aos olhos de todos. Quase nada a vista da essência.

Pode ser lindo, encantador.

E um sonho possível.

Sempre tem dois lados.

Cor de rosa. Também cinzento.

O combo da vida. Uma escolha uma renuncia.

E quem quer renunciar?

São proezas da aventura. São apertos da saudade. E o dissabor de quem cresce.

Já dizia minha mãe. Sem pressa. Mas papo de mãe só faz sentido com atraso.

A pressa que mesmo com pressa nunca cessa.

São dois corações. Fácil só para quem enxerga. Para quem sente…nem tente.

Quem vive aqui e ali, sabe que nem la e nem cá uma vida se enche quando não se tem a nossa família por perto.

sem aval de MÃE

Talvez porque ainda tenha resquícios da adrenalina no meu sangue mesmo 30 dias passados, eu preciso escrever sobre isso. Primeiro pelo fato de que faz tempo que não faço minhas produções textuais, segundo porque eu preciso registrar isso pra vida e terceiro porque é muito provável que se hoje eu mal consigo explicar e até lembrar-me de como foi, imagina em um futuro distante que vou querer contar aos meus netos que adorarão saber que a vovó pulou de Bungy.

Há um tempo que eu já tinha esse compromisso comigo mesmo: Pular de 134 metros de altura. Seria isso um prédio de quantos andares? Ruminava, mastigava essa ideia quase que diariamente. Pensava na possibilidade de dar errado. A grande verdade é que eu pensava na minha mãe. E o que a gente sempre quer é a autorização de mãe, certo? Não era o caso. Ela era contra e não tinha certeza da segurança do negócio e era exatamente isso que me deixava insegura. Além do mais, a insegurança de tomar decisões sem o aval dela.

Bem, não é nessa vida que teremos consentimentos e garantias de tudo e de todos. Eu tento repetir isso constantemente pra mim. Bancar e arcar. Bancar minhas escolhas e arcar com as consequências.

Eu tomei a decisão. E não ia ter volta.

Dor de barriga, coração disparado, risos inadequados, gargalhadas desesperadas e por sorte algumas lágrimas que salgavam minha boca seca.

Chegou minha vez. Eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser se meu equipamento estava bem amarrado. Minha corda parecia ser velha. Perguntei inúmeras vezes se a noite eu estaria em uma ligação de vídeo com minha mãe, se eu estaria dormindo na minha van e se muito em breve eu estaria comemorando a minha vida.

A equipe em volta me garantiu e eles de fato passavam certa credibilidade. Eles eram descolados e reluziam vitalidade. “You can do it”, te empoderavam.  A música alta te mantinha na batida. As pessoas em volta que já haviam pulado riam à toa, obviamente porque já estavam a salvo. Eu também queria provar disso.

Fui conduzida então até a beira do precipício. Chorava e tremia por inteira, ate porque que eu estava diante de um riacho praticamente sem água e não era da minha natureza jogar-me contra isso. Eu estava apavorada. Começou a contagem regressiva. Cinco, quatro, três, dois, um. Pulei.

A única coisa que consigo lembrar era dos meus pés procurando por um chão e de um arrepio tão insano que acho que jamais seria possível de explicar. E logo que pisei meus pés em terra firme eu só consegui pensar que agora já não corria mais risco da minha mãe me matar.

EM MEIO AOS DESENCONTROS

A vida.

Como é engraçada.

Acontece e a gente não espera.

A gente espera e não acontece.

A dor invade sem dó. Chega e demora a deixar.

A dura verdade é que ela fica. E só o tempo para acomodar.

Ela vai ficar ali pra sempre e a cada lembrança um aperto.

Eu sei, esse nó vai afrouxar.

O sorriso vai brotar quando a gente recordar.

A gente vai sonhar com os lindos encontros dessa vida.

E quando acordar, mais um dia para relembrar.