TER NÃO MAIS QUE SER

Gostaria de encontrar mais sossego em meus tempos de tédio. Mas é aí, nesse intervalo, que eles vem com força total. Dificilmente me dão uma folga. Pro bem ou pro mal, eles ficam. Um tal de ócio produtivo. E quando penso que me livrei do penso, eis que aparecem no meu profundo estado adormecido. Até  que de quando em quando me pego me mandando a merda. Gosto de acreditar que eu não sou a única.

Seguindo o raciocínio, que é uma prática difícil pra mim, venho me consumindo pela falsa ideia de felicidade alheia. 

Estamos viciados na ideia de ter e ser.

Nossa geração cibernética – me incluo aqui – está satisfeita com informações superficiais e com a instantaneidade desse mundo que nos treina pra correr. Talvez esse meu desconforto seja um sintoma de insatisfação. Mas tenho certeza que essa sensação desconfortável não pertence só a mim. 

Pode até ser que eu esteja com muito tempo livre, ainda que tente usa-lo com leituras e vídeos sobre finanças. Mas a minha ideia aqui, longe de pregar o moralismo, é criar um espaço de penso. Espaço que há muito tempo não tem tempo. 

Confesso – talvez seja visível – que antes mesmo de abrir os olhos pela manhã, já estou sabendo o que a fulana comeu na noite anterior. O que me faz pensar que aquele tempo do The Sims em que construir mansões com “rosebud;!” era muito mais real. 

Não me interpretem mal, não estou dizendo que somos falsos. Estou apenas lamentando a prática de valorização de coisas tão rasas. Também faço parte dessa comunidade. Também quero ser magra, rica e passar o ano novo em Fernando de Noronha. Mas antes, eu quero tantas outras coisas, que isso é a parte pequena dos meus sonhos.

Quero ser feliz e viver sem me importar com julgamentos. Eu quero poder falar sem me policiar. Eu quero me expor sem medo de ser ridicularizada. Eu quero esbanjar a saúde de uma gordurinha localizada e uma bunda de quem nadou na coca-cola. Quero que as meus erros não sejam entendidos como imprudência ou mau-caratismo, mas de alguém que tentou acertar. Quero gargalhar, gritar, sem ser vista como inconveniente. Quero ser feliz sem incomodar. Eu quero poder ser criança ainda que já adulta. 

Tenho eu meu direito de liberdade e vou libertar tudo que pulsa aqui dentro, quase que como não existisse filtro entre o que vem e o que sai, pois já basta a censura do mundo.

E cá entre nós, é bem mais justo viver assim.

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