um tempo presente

O homem dos tempos que divaga nos tempos passados, que desfruta dos tempos de agora, que devaneia no tempo que não tarda.

O tempo sempre te assustou.

Quando passa a contemplar, no silêncio, a vida, enfatiza: “sente isso aqui”. Sensível, não consente que o instante vá em vão.

E nunca foi.

Doce 30 anos que começa. Ainda que simbolize o desfecho de uma estação, se revela a calma de quem levou da vida e do frescor que a cerca.

São novos tempos que aconchegam, que te abraçam e te felicitam.

Te demora ainda mais, é nesse passo manso que a vida te estende o presente.

E eu aqui, com o meu tempo pra ti.

LIBERDADE DE SER QUEM SE é

Todos nós falamos sobre aceitação, mas como isso funciona na prática?

Discursamos que é preciso acolher a si mesmo, mesmo as imperfeições, no entanto tudo anda em uma direção tão contrária que é difícil abraçar o que tá “torto”. Não me parece um mundo que da espaço para aquilo que não se enquadra. Mas antes do mundo abrir brecha, ela mesma o fez.

Curioso pensar que somos nós que criamos padrões que nós mesmos temos que nos encaixar. Inquestionavelmente essa conta não fecha porque ninguém se encaixa, porque é utópico, porque é irreal. Se por algum momento houver a sensação de estar no molde é fugaz, porque em algum quadrado as pontas não vão calhar.

Quanto tempo perdermos nessa tentativa ineficiente?

Talvez tempo suficiente para perceber que não há beleza mais estonteante daquela que carrega consigo a liberdade de ser quem se é.

Feliz que este tempo chegou pra ti minha irmã. Feliz que estamos celebrando a vida como deve ser. Livres.

O VAGABUNDO A FRENTE DO SEU TEMPO

Já foram algumas discussões que brotaram de sua ganância quase que incompatível com o mundo que goza da posse. Ele só tinha sede de tempo. Os que o cercavam o chamavam de vagabundo, ou aos olhos dos mais generosos, o célebre hedonista. Pra mim, um jovem surfista romantizando a vida ao lado do mar. Pra ele, um estóico convicto de seus valores. Na grande verdade, um filósofo sensível, amante do simples, contente com a essência. Ainda que carregue consigo seus gostos refinados de quem nasceu privilegiado, ainda que persista o requinte e o prazer de um cashmere, a euforia borbulha na candura que o cerca.


Não haveria outro jeito, permanecia em seus devaneios. A pressa emaranhada à volta nunca lhe coube. Não havia sentido na vida condensada entre tantas horas de trabalho para o tantinho que lhe sobrava. Muito menos o sistema engessado que encoraja o maquinismo.


Sua ideia de conquista sempre esteve bem distante daquela que algum momento foi concebida. Sua vontade que suas vontades tivessem vantagem fez com que escapasse para 15mil km de distância de tudo aquilo que era protegido e garantido. Pisou em terra firme, mas nem tão firme para quem ainda caminhava em solo inexplorado. Seus recursos intelectuais colaboraram para que logo ocupasse um espaço próspero, mas foram a sua sensibilidade e sua mansidão que encantaram a todos que lhe cruzavam.

Com o tempo aquilo que nos parecia um desatino, foi dando forma a uma vivência cheia de significado e sentido. O tempo, já não mais acelerado, um tempo despreocupado, o tempo no seu tempo. E com meu desembaraço andando lado a lado, a vida se demora, e a gente se deleita nas vontades que nos tocam.

Um vagabundo anos luz a frente do seu tempo.

CONVERSANDO COM A TRISTEZA

Andei conversando com a minha tristeza…

Pareceu-me razoável.

Confesso que a gente estava se desentendendo.

Eu queria mesmo é estar tagarelando com a felicidade, mas era a tristeza que estava se fazendo presente. 

Pensei que se deixasse de tentar evita-la então, quem sabe não poderíamos nos entender melhor?

Pobre tristeza. Mania essa de tentarmos impedi-la. Não que ela seja bem-quista, mas a verdade é que ela é necessária. E mais verdade ainda é que ela vai estar presente em nossas vidas. Não adiante fugir pra Austrália, mudar para o litoral, ganhar um aumento, comprar um cachorro…ela vem junto e tá tudo certo.

Mania essa de ditarmos a felicidade eterna e encararmos a tristeza como algo de outro mundo. Acho que até faz sentido em tempos que ostentamos sorrisos disfarçados e é por isso que quem a sente se sente quase que um alienígena.

Mas é preciso “normalizar” a tristeza. Ela faz parte de uma vida feliz. É quando a gente a experimenta que a gente engrandece o avesso.

É aquela coisa da felicidade tirana e a gente nem se quer para pra pensar que a tristeza tem uma perspectiva evolucionista.

A tristeza é um dos raros momentos de reflexão que nos leva a querer fazer diferente.

A tristeza aproxima. Permite-nos crescer. Fortalece a espiritualidade. Desperta vínculos. Aviva elos. Traz autoconhecimento. Desperta.

E como é bom despertar, é quando passamos a olhar ao nosso redor e perceber todas as cores que contornam nossa vida.

ReflexÕes de um aniversÁrio: FOI O MEU MELHOR PRESENTE

Eu realmente acredito que tem coisas que são universais. Sensações, sentimentos, pensamentos e certas vivencias que são partilhados por todas as pessoas. E em datas comemorativas é mais ou menos assim… mexe e remexe, revira do avesso todos nós.

Tenho certeza que eu não estou desacompanhada neste fenômeno de estremecimento, de balanço emocional, de burburinho íntimo, um verdadeiro rebuliço interno.

Um momento de enaltecer as coisas boas. Momento de dedicar-se a entender por que algumas coisas não deram certo. Momento de ponderar a razão de não ter levado tantas ideias adiante…É aquela velha prática de pesar a balança.

É também uma estação de comemoração. São dois meses de precipitação. A idade por vir já é tida bem antes da hora. No bendito mês, é pretexto de acontecimentos diários. Desculpa perfeita para envolver todo mundo.

Os amigos distantes, as vezes ausentes, revelam mesmo de longe, a camaradagem de uma vida. Paparicadas da mamãe. Mimos de papai. Afagos do maridão. E sem esquecer dos regalos. Uma excelente chance para recauchutar o armário das meias furadas.

Novamente vai ser um aniversario atípico. E aqui eu faço questão de reiterar minha concepção sobre a universalidade de sentimentos e acontecimentos. Passa ano e os aniversariantes sempre esbarram com o imprevisível: Acredite ou não, eu já fui afortunada a tal ponto de ter que ficar isolada, sem se quer receber um abraço e o pior, sem poder assoprar a minha velinha realizadora de sonhos em virtude de uma caxumba (ainda não existia corona vírus para nos lembrar que isolamento já faz parte dessa vida).

No meu tão esperado dia, o dia que eu tanto estimo estar rodeada pelos meus, vou estar meramente na minha companhia, do outro lado da Oceania. Evidentemente, que não estava em meus planos eu mesma ter que arrumar minha cama no único dia que eu me esquivo dessa tarefa ingrata.

Mas como todos nós sabemos, a vida é ”assim”: um momento, um instante, um susto. O dia que vai, o dia que vem. É a sensibilidade da existência. Bela na sua essência. Uma fragilidade da realidade.

E o motivo era maior. Os meus, abraçaram por mim. Este foi o meu melhor presente.

REFLEXÕES de um ano novo

É um ano terminar, outro começar que sentença de mudança é decretada. Muito provavelmente as mesmas mudanças já prometidas em tempos distantes, o que por fim acaba reforçando nossa insegurança de não levar adiante tantos projetos e sonhos. Afinal, é tão mais fácil deixar para o ano que vai vir. Só que neste caso, até o próximo chegar, ainda o temos por inteiro.

Ano novo tem frescor. Tem leveza. Tem frio na barriga. É esperança. É possibilidade. Tem coragem, tem resposta. É resolução. É audácia. É a ordem da desordem. Um novo sentido. Um novo olhar. Uma nova vida. É mais uma oportunidade.

E como é bom começar…É bom começar de novo, mesmo que já houve tantos desses começos e recomeços. Deve haver lá suas razoes, ou suas desculpas. É que nem sempre a vida e nossas vontades se entendem. As vezes acontece de eu querer ir por ali e é pra lá que a vida me leva.

Mas esse ano vai ser diferente. Eu decidi mudar. Eu apostei em mim mesma e deixei de lado toda segurança de um caminho cômodo. O pouco do receio que me acompanha fica insignificante perto da felicidade de uma liberdade.

Se há duvidas se questione. Não aceite menos. Não deixe que a estabilidade seja um ponto a ser considerado. Não se acomode. Não ceda a mediocridade. Não se limite.

Há um mundo de possibilidades. É apenas sobre dar um primeiro passo.

Uma vez a frente, não vai querer voltar para trás.

para mim MESMA

Hoje é o meu dia e eu vim me presentear com os meus mais sinceros conselhos, vim me agraciar com minhas reflexões, me contemplar com a minha generosidade e grandeza:

A beleza é sem dúvidas encantadora quando falamos de alma


A formosura de um corpo esperado só tem graça quando há a graça de um gingado.


Ter sucesso é tão pouco quando a finalidade é felicidade.


Comparar-se é uma luta perdida. Ter mais ou ter menos, o que importa? quando tudo tem.


Ter coisas é bom, mas bom mesmo é ter afeto. Só fica pra sempre aquilo que pulsa.


Sem pressa. Tudo tende a se ajeitar de um jeito ou de outro.


Culpa não tem serventia. Não seja culpada, seja responsável.


A Incerteza não vai nos deixar, sempre existirão caminhos distintos com diferentes saídas.


O medo é protetivo. Quando parar de senti-lo, tenha medo.


Nem sempre tudo vai dar certo e muitas vezes isso não diz respeito a ti, é apenas a vida acontecendo.


Sonhar acordado é ainda melhor do que quando dormindo. Sonhe com um sonho de doce de leite e vai ver que não precisa sonhar gigante.


Amanha vai chegar. E depois também. O hoje se vai e não volta.


Enriqueça-se de tempo, ele desaparece e a gente nem percebe.


Não seja tão dura consigo, as pessoas já são.


A tristeza é necessária, é quando nos aproximamos dela que nos tornamos capazes de refletir.


O tédio é fonte de imaginação.


Não guarde magoas, uma hora ou outra transborda.


Faça as pazes com suas escolhas mesmo que tenham sido acompanhadas de duras consequências.


Não se esqueça, cada um da o que tem (de dentro de si).


Deixe de lado essa ideia de perfeição. É ilusório.


Cuide dos seus. Amar e ser amado é o doce dessa vida.


Se ame. Ame seus desconcertos. Ame seu jeito que exibe a flama de uma vida vivida.


E contemple ao teu redor…


É a beleza estonteante de uma alma leve, liberta de conceitos, solta de convicções.

ai de quem errar

Minha mãe sempre me disse que à medida que vamos ficando mais velhos vamos ficando mais medrosos. Por certo tem tudo a ver com a onipotência assombrosa do mundo juvenil. E é mais uma das grandes verdades de mãe que é pouco compreendida – tá aí um outro medo, medo de quando meus discursos forem inúteis aos ouvidos dos meus filhos.

São tantos os medos que até de pensar em ter medo eu tenho medo. Mas neste meu momento atual de vida que quase desaprendi a me cuidar nas ruas, que quase não esbarro em notícias violentas, o medo é de aranhas e das pessoas sem defeitos. As aranhas a gente da um jeito, taca veneno e da vassourada. Já a perfeição em forma humana é indicativa de cautela.

Ressalva a minha mãe que é impecável, todos podemos ser bons e todos podemos ser ruins, ou contrário desfavorável, podemos ser ruins e podemos ser bons. Sinto em desfazer o conceito de impecabilidade do mundo, mas é preciso desnudar essa utopia.

Com o tanto de exposição e o tantão de intimidade por conta do nosso mini mundo online, todas as escorregadelas, os lapsos, as confusões, as discordâncias já ocorridas desde que a minha árvore genealógica começou, hoje são tidas, vistas, interpretadas descomedidamente como intoleráveis.

“Tropeço também é passo” eu li por aí. Já muito titubeei até aqui e só escapei porque os meus tempos de câmera Kodak não permitiu que os fatos saíssem dali e adentram-se mundo afora.

Não estou aqui falando de qualquer tipo de violência, discriminação, preconceito. Estou me referindo a intolerância fanática ao erro que incoerentemente reprovam condutas alheias comportando-se tal qual ou se não pior. Me refiro é sobre a dureza das pessoas que condenam sem compaixão, que despejam palavras de ódio numa tentativa vã de reparo. É sobre a tamanha incompatibilidade entre discursos mascarados por uma tela e os modos de um dia banal. O que me espanta é a censura em massa que populariza hostilidade e instiga conflito.

Ai de quem errar, ai de quem sair da linha. Vai ver tem nexo a inquietação da perfeição, é o medo disfarçado. E eu quase deixo tudo isso pra lá quando eu vejo que quem ama, ama por inteiro. A minha sorte é assim, amor que floresce e não importa, é a essência de ser por fim.

o dia a ser gratificado

Nesses dias chuvosos, tanto lá fora quanto aqui dentro, me dei por conta que estamos sempre numa busca incessante. Uma busca pelo certo. A procura de algo lá adiante.


Já faz um tempo que inseri em minhas manhãs, logo ao acordar, a meditação guiada. São 15 minutos de conexão com o presente momento, algo bem desconsiderado por nós, já que estamos sempre pensando pelo menos uma hora à frente, quando não no final de semana que está chegando, na semana seguinte, no mês que vai vir, nas próximas férias. E eu me pergunto, e hoje?

Hoje o que vejo sou eu e uma massa ocupando-se dos dias que ainda nem chegaram – claro que preocupar-se do porvir é necessário quando se fala de uma vida adulta, no entanto aqui me refiro a responsabilidades e deveres. Já o restante pode esperar a ordem natural das coisas, somado a uma pitadinha do acaso e do destino.


Existe uma ausência de contentamento cotidiano, do simples, do acessível. É um descaso com o dia-a-dia, onde os “pequenos” grandes feitos são esquecidos ou apenas entendidos como parte da rotina. E é pela falta de graça do dia corrente que não há sossego enquanto a linha da vida já não esta toda traçada. É isso que nós exigimos o tempo todo, sem nem nos darmos conta, que já tenhamos respostas quando se quer temos as perguntas.


Os poucos que se libertam do reportório estipulado, culpam-se por não estarem no caminho “certo”. E que caminho é esse, tão certeiro que seria capaz de levar todos a uma única possibilidade de felicidade plena?Tomara que um dia possamos entender que só é certo se está certo pra ti, e isso não abraça o mundo todo.   


E não é que as palavras acima fazem tão mais sentido agora? Era mais um dos meus textos de análise e reflexão que havia deixado de lado. Era um desabafo cansado de tantas tentativas próprias, e dos próximos, de encaixar uns aos outros no modelo padrão – uma enorme deslealdade consigo mesmo.

Agora, no meio do caos, o mundo parou e estamos todos vivendo o mesmo dia. Ninguém na frente, ninguém atrás, tão pouco existe divisão.De nada adiantou acelerar a vida. O hoje que já não espera o amanhã, o amanhã que já não espera o seguinte, nem o seguinte o próximo, talvez agora seja contemplado. Talvez tudo isso seja a vida delongando, nos concedendo tempo pra viver, conviver, pra amar e se amar. Talvez, eu já não sei – nem eu nem ninguém – isso seja a vida nos sinalizando que o hoje é um dia a ser gratificado.

O AMOR É DISTÂNCIA

Já ouviu falar daquele ditado “pimenta nos olhos dos outros é refresco?”
Vai por mim, é conveniente entender.

É uma expressão usada diante da falta de empatia e respeito em relação ao sofrimento alheio. É pouco caso, é desdém, é frieza, é indiferença. Afinal, não é comigo.


Em minha opinião, um ditado que convém precisamente com a nossa sociedade egocêntrica. Um ditado que representa a todos nós, seres humanos, que não entendemos o conceito de solidariedade. Uma expressão que condiz perfeitamente com o momento atual em que vivemos. Afinal, se eu pegar o corona vírus “não vai dar nada”.


Teoricamente, estou a três semanas de voltar para casa. Em contagem regressiva desde setembro do ano anterior, quando comprei as passagens. O plano era ir em dezembro para juntar-me a família nas datas comemorativas mas com os preços exorbitantes para comer um peru, optamos pela sensatez e adiamos a ida para abril.


Adiamos sem nem sequer imaginar que estaríamos vivendo não um surto, nem uma epidemia, mas uma PANDEMIA  – um conceito alienígena para mim até então. E caso ainda não esteja por dentro, uma pandemia é a disseminação de uma nova doença em escola global. Ou seja, é coletivo, é geral, é para todo mundo. Por isso, aconselho desde já a entender que essa pimenta vai arder para todos, e em todos.


O corona vírus é grave. Porém, quase tão grave quanto, é a falta de discernimento das pessoas. Isso, sim, me preocupa – um cenário alarmante e as pessoas omitindo a magnitude do problema. Muito possivelmente porque não seja o maior dos problemas para essas mesmas, mas já para tantas outras, o que resta é esperar que o bom senso dos mais indiferentes se manifeste. Eu me refiro aqui aos idosos, asmáticos, pessoas com doenças do coração, diabéticos, hipertensos…são essas pessoas que precisarão contar com o nosso cuidado.


É uma questão de responsabilidade social. É hora de se recolher, de se proteger, sobretudo protegermos uns aos outros. É o momento de assumirmos nosso compromisso diante a existência. É a desordem do mundo sinalizando mais uma vez que a humanidade suplica harmonia. 


O mundo está em caos.

Deixe as festas para depois, é melhor quando se tem clima. Vamos evitar aglomerações em lugares fechados. Vamos abrir mão dos entretenimentos sociais e valer-se da família, muitas vezes deixada de lado, ocupar-nos dos nossos avós, que só tem espaço nos almoços de domingo, desfrutar dos livros negligenciados, aproveitar pra dar o check naquela lista de coisas a fazer em 2020, usufruir da própria companhia – algo desaprendido desde o princípio da internet – ou apenas aproveitar para sossegar a bunda no sofá, tenho certeza que pode brotar uma proveitosa reflexão.


Sinto em dizer – ou nem tanto – que esta em nossas mãos prevenir a expansão desse vírus. Não se limite a achar que o ponto da questão é álcool gel. É bem maior, mas tão mais simples: é a força da generosidade.

Por fim eu já não sei mais se vou voltar pra casa. Talvez tenhamos que adiar mais uma vez. Em tempos como esses, engraçado pensar que amor é distância.