O VAGABUNDO A FRENTE DO SEU TEMPO

Já foram algumas discussões que brotaram de sua ganância quase que incompatível com o mundo que goza da posse. Ele só tinha sede de tempo. Os que o cercavam o chamavam de vagabundo, ou aos olhos dos mais generosos, o célebre hedonista. Pra mim, um jovem surfista romantizando a vida ao lado do mar. Pra ele, um estóico convicto de seus valores. Na grande verdade, um filósofo sensível, amante do simples, contente com a essência. Ainda que carregue consigo seus gostos refinados de quem nasceu privilegiado, ainda que persista o requinte e o prazer de um cashmere, a euforia borbulha na candura que o cerca.


Não haveria outro jeito, permanecia em seus devaneios. A pressa emaranhada à volta nunca lhe coube. Não havia sentido na vida condensada entre tantas horas de trabalho para o tantinho que lhe sobrava. Muito menos o sistema engessado que encoraja o maquinismo.


Sua ideia de conquista sempre esteve bem distante daquela que algum momento foi concebida. Sua vontade que suas vontades tivessem vantagem fez com que escapasse para 15mil km de distância de tudo aquilo que era protegido e garantido. Pisou em terra firme, mas nem tão firme para quem ainda caminhava em solo inexplorado. Seus recursos intelectuais colaboraram para que logo ocupasse um espaço próspero, mas foram a sua sensibilidade e sua mansidão que encantaram a todos que lhe cruzavam.

Com o tempo aquilo que nos parecia um desatino, foi dando forma a uma vivência cheia de significado e sentido. O tempo, já não mais acelerado, um tempo despreocupado, o tempo no seu tempo. E com meu desembaraço andando lado a lado, a vida se demora, e a gente se deleita nas vontades que nos tocam.

Um vagabundo anos luz a frente do seu tempo.

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